Campinas, 22 de Maio de 2018
TAQUARAL NÃO QUER MAIS O DESFILE DA CITY BANDA
07/02/2018
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O Conselho Comunitário de Segurança do Taquaral, reunido na noite de 5 de fevereiro, decidiu encaminhar nos próximos dias uma petição ao Ministério Público solicitando a retirada do desfile da City Banda da praça Arautos da Paz. A medida foi definida por votação das cerca de 50 pessoas que participaram da reunião e ouviram os relatos de moradores, comerciantes e comandantes da Polícia Militar e Guarda Municipal. “Caos” foi a palavra mais repetida nos depoimentos.

Embora concordem com a retirada do desfile do bairro, alguns moradores ponderaram que “não adianta tirar a bagunça daqui e empurrar para outro bairro, como foi feito há dois anos quando o bloco saiu do Cambui e veio para o Taquaral, levando junto os mesmos problemas”. Como evento tem uma parte paga, com open bar, o ideal seria ir para um local fechado, onde a prefeitura tivesse controle do número de participantes, sugeriram os policiais.

Este ano participaram do desfile cerca de 60 mil pessoas. No ano passado foram perto de 30 mil. O receio por esse aumento expressivo de pessoas é que a falta de organização acabe provocando uma catástrofe, como ressaltou Rildo Gorayb, morador no Parque das Flores. Maria Lucia Danzul, que mora há 20 anos no Chácaras Primavera, frisou: “se está sendo avaliado como caos, se não tem planejamento, se está causando problemas, só temos que pedir o cancelamento mesmo!”

Guarda Municipal foi atacada

O comandante da Guarda Municipal, Márcio Frizarin, relatou que a GM convocou 200 homens para o evento e ficou responsável pela área externa, principalmente na dispersão. Mas a corporação foi atacada com pedras e garrafas, ficando com seis policiais feridos e duas viaturas danificadas. Houve tiros de bala de borracha e a janela de vidro de uma casa foi quebrada.

O morador do Taquaral Cláudio Rampazzo, presente à reunião, confirmou a agressão que ocorreu em frente sua residência e desabafou: “Estou pagando 30% a mais de imposto e tenho que suportar essa bagunça? Minha mãe tem 84 anos e vivemos momentos de terror naquela noite, vi a GM apanhando, onde vai parar isso?”

Vários moradores das imediações relataram problemas como muitos menores bêbados, excesso de ambulantes sem qualquer fiscalização, falta de veículos do transporte coletivo para desafogar os pontos de ônibus que ficaram lotados por muito tempo após o desfile, a falta de banheiros químicos, estacionamentos irregulares, bares abertos com venda de bebidas em garrafa, entre outros. Ao final da festa, foram retiradas cerca de 50 toneladas de lixo do local, segundo informações da Prefeitura.

Grupos organizados faziam assaltos

O Capitão Hercílio de Almeida Costa, da Polícia Militar, conta que até as 18 horas aconteceram incidentes pequenos e isolados. Mas entre as 18h e 21h30, “foi um caos, sem condições de realizar policiamento preventivo e com muita provocação e enfrentamento”.  Foram roubados celulares, dinheiro e até chinelos dos foliões. Mas a identificação dos assaltantes era dificultada pela estratégia utilizada pelos grupos.

Ele conta que “eram formados vários grupos – de 40 a 100 pessoas cada – com o mesmo perfil: jovens e adolescentes, sem camisa, de boné, bermuda e tênis (o que dificultava a identificação porque estavam todos praticamente iguais), que avançavam sobre os foliões e depois se dispersavam no meio da festa. E voltavam a se reunir em outro ponto. Ao verem os policiais, eles não recuavam, mas partiam para o confronto, sem qualquer temor”.

Os estabelecimentos comerciais do entorno – supermercado Dalben, Mac Donalds e loja de conveniência do Posto BR – e seus frequentadores sofreram saques e roubos em vários momentos.

Água quente e facadas contra xixi na calçada

Aos moradores do entorno, além do barulho, estacionamento irregular de veículos e calçadas tomadas por ambulantes, sobrou o banheiro a céu aberto. Como os banheiros químicos foram insuficientes para os quase 60 mil foliões, qualquer muro, portão ou árvore virava banheiro público. Isso provocou alguns incidentes, como uma moradora que ogava água quente em quem insistia em urinar na sua porta e até um caso de esfaqueamento de uma mulher durante discussão originada pelo xixi na calçada.  

PM reprovou a realização do evento

O Capitão Costa, da Polícia Militar, conta que fez a vistoria prévia do local na sexta, apontou vários itens inseguros e retornou no sábado, as 11 horas, sem que esses pontos tivessem sido corrigidos. Por isso, a PM reprovou a realização do evento, mas os organizadores assinaram um documento se responsabilizando por qualquer problema que houvesse.

Segundo os policiais, a parte fechada da festa – com os foliões que compraram abadá e com direito a open bar – era de responsabilidade da organização da City Banda. Já a parte aberta, onde qualquer pessoa podia acompanhar, sem direito as bebidas do bloco, essa era de responsabilidade da Secretaria Municipal de Cultura, que apoiou o evento.

MP foi alertado sobre falhas na organização

No dia 9 de janeiro o representante do Conseg Marcos Ferreira participou de uma reunião com representantes de secretarias municipais, autarquias, organizadores do evento, onde “ficou evidente que não havia sido feito um planejamento rigoroso visando uma infraestrutura adequada e segurança dos participantes. Nem a base mínima que havia sido montada para o evento do ano passado – como o fechamento dos bares do entorno, área para estacionamento, fiscalização de ambulantes e definição do efetivo policial - foi resgatado”, conta Marcos.

Como até 16 de janeiro essas definições não haviam sido tomadas, o Conseg enviou questionamentos ao Ministério Público alertando para a vulnerabilidade do evento, que estava sendo estimado pelos organizadores em 40 mil pessoas, mas compareceram cerca de 60 mil.  

Este foi o segundo ano consecutivo da festa no Taquaral. A City Banda desfila a 22 anos e os primeiros 20 foram nas ruas do Cambui, mas a expansão e violência inviabilizou a permanência do bloco naquele bairro. Da mesma forma que ocorre agora no Taquaral. A petição pedindo a suspensão do desfile no Taquaral será protocolada diretamente no Ministério Público nos próximos dias, pois segundo o representante do Conseg Marcos Ferreira, a Prefeitura não mostrou interesse em resolver esse problema.


Imagem da praça Arautos da Paz, no incio da concentração (foto ClickDrone Lucas Vieira)

História do City Banda

A City Banda nasceu em 1996, como um bloco carnavalesco de frequentadores do City Bar, um dos mais tradicionais de Campinas, localizado no bairro Cambui desde a década de 50. Os primeiros desfiles foram marcados pela folia espontânea de amigos. Mas com o tempo o bloco foi crescendo, se associando a outros blocos menores e hoje é o desfile que reúne o maior número de foliões na cidade. Cerca de 60 mil pessoas participaram no dia 3 de fevereiro de 2018.

Seu desfile foi realizado nas ruas do bairro Cambui (no entorno do Centro de Convivência Cultural, próximo ao Centro da cidade) entre 1996 e 2016, quando o número de frequentadores já estava em cerca de 20 mil pessoas, permeado com ocorrências de violência e depredações. Em 2016 ocorreu o último desfile no bairro de origem e a Prefeitura transferiu a festa para a as imediações da praça Arautos da Paz, no bairro Taquaral, onde foi realizado em 2017 e 2018.


* A imagem inicial, que mostra os foliões durante o desfile, é do face oficial da City Banda 

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